A Igreja de Éfeso

Ao anjo da igreja em Éfeso, escreva: Estas são as palavras daquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro. Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores. Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome e não tem desfalecido. Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele. Mas há uma coisa a seu favor: você odeia as práticas dos nicolaítas, como eu também as odeio. Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.
Apocalipse 2:1-7

Nos próximos dias falaremos sobre as sete igrejas da Ásia em que o apóstolo João enviou o livro de Apocalipse e um recado especial para cada uma delas. Antes de iniciarmos falando da primeira igreja, vamos retratar um pouco do contexto em que o apóstolo escreveu essas cartas para as sete igrejas.

Contexto histórico da época

As cartas foram escritas no período do Imperador Domiciano, quando ele iniciou uma perseguição aos cristãos. Nessa ocasião, João foi banido para a ilha de Patmos, uma colônia penal romana, onde se exilavam prisioneiros políticos. Ali esses prisioneiros perdiam todos os seus direitos civis e todas as posses materiais. Os prisioneiros eram obrigados a trabalhar nas minas daquela ilha, vestindo-se de trapos. A ilha ficava no Mar Egeu e tinha trinta e dois quilômetros quadrados. Era inóspita (tinha más condições de vida), por causa das rochas escarpadas e da constituição do solo, sendo praticamente desabitada naquele tempo. Era uma ilha nua, vulcânica, com elevações de até 300 metros. Possivelmente João foi acusado de subversão pelo governador da Ásia por pregar o evangelho e por testemunhar do Senhorio de Cristo, em um tempo em que o imperador arrogava para si o título de Senhor e Deus. João foi banido na qualidade de líder das igrejas na parte ocidental da Ásia Menor. Os oficiais romanos consideravam João como fomentador da religião cristã. João é condenado a sofrer humilhações, prisão, fome e trabalhos forçados por amor à Palavra de Deus. Foi nesse cenário que João escreveu as cartas para as igreja e o livro de Apocalipse.

Contexto das igrejas da Ásia

– Duas igrejas eram muito boas: Esmirna e Filadélfia.
– Duas eram muito más: Sardes e Laodicéia.
– Três eram parcialmente boas e parcialmente más: Éfeso, Pérgamo e Tiatira.

As cartas apresentam o mesmo padrão e segue a seguinte síntese:

1° – Jesus se apresenta para a igreja.
2° – Jesus elogia a igreja (exceto Sardes e Laodicéia).
3° – Jesus trás condenação ou crítica a cada igreja (exceto Esmirna e Filadélfia).
4° – Jesus traz a correção e a instrução para cada igreja.
5° – A admoestação (repreensão, conselho) dada as igrejas: “Aquele que tem ouvidos…”
6° – A promessa para cada igreja: “Ao vencedor…”

Contexto histórico da cidade de Éfeso

Agora que já trouxemos o contexto histórico da ocasião da escrita das cartas e sobre os aspectos de como foi escrito, iremos iniciar de fato falando sobre o contexto histórico da cidade de Éfeso que é o tema do nosso artigo.

Éfeso era a maior, mais rica e importante cidade da Ásia Menor. Era chamada “a feira das vaidades” do mundo antigo. A cidade tinha uma população estimada em mais de duzentas mil pessoas. Os efésios construíram um teatro que podia oferecer assento para cerca de vinte e quatro mil pessoas. Na cidade, ficava o mais importante porto da Ásia Menor. Era o centro do culto a Diana, cujo templo jônico era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Nesse templo, havia centenas de sacerdotisas que funcionavam como prostitutas sagradas. Paulo visitou a cidade de Éfeso no final da segunda viagem missionária, por volta do ano 52 d.C. e durante sua primeira prisão em Roma, Paulo escreveu a carta aos efésios, agradecendo a Deus o profundo amor que havia na igreja. Timóteo foi enviado para ser pastor da igreja e mais tarde, João pastoreou a igreja. Agora, depois de 40 anos, Jesus envia uma carta à segunda geração de crentes, mostrando que a igreja permanecia fiel na doutrina, mas já havia se esfriado em seu amor.

Jesus apresenta-se a sua igreja

“Ao anjo da igreja em Éfeso, escreva: Estas são as palavras daquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de ouro.” Apocalipse 2:1

Para a igreja que tinha obras, doutrina e perseverança, Jesus se apresenta como aquele que é Todo-Poderoso e onisciente, Ele tem o poder e autoridade tanto de pegar uma estrela com a sua mão, quanto de todas as igrejas da Ásia, e anda entre elas, conhece todas as coisas. Ele conhecia as qualidades da igreja, mas sabia também dos seus defeitos.

Jesus elogia sua igreja

“Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores. Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome e não tem desfalecido. Mas há uma coisa a seu favor: você odeia as práticas dos nicolaítas, como eu também as odeio.” Apocalipse 2:2-3,6

Jesus agora elogia a igreja por conta das suas obras, seu trabalho e sua perseverança, inclusive contra as práticas dos nicolaítas(um grupo que pregavam um evangelho liberal, sem exigências e sem proibições. Eles queriam gozar o melhor da igreja e o melhor do mundo. Incentivavam os crentes a comerem comidas sacrificadas aos ídolos e ensinavam que o sexo antes e fora do casamento não era pecado).

Jesus condena a sua igreja pelo esfriamento do seu amor

“Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor.” Apocalipse 2:4

Depois da apresentação e elogio de Jesus, vem a repreensão por conta do esfriamento da igreja. O amor deve ser a marca do cristão, e o crente sem amor, precisa rever o seu cristianismo. Era uma igreja que trabalhava, mas o trabalho de Deus não pode tomar o lugar de Deus em nossa vida. Deus está mais interessado em um relacionamento com Ele do que em trabalhar para Ele.

Jesus aconselha e repreende a sua igreja

“Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele.” Apocalipse 2:5

O termo grego traduzido por “arrepende-te”, significa: “transformar o teu pensamento e tuas ações”. É o mesmo termo que Paulo usa em Romanos 12 quando ele nos exorta a ter uma mudança de mentalidade. Não é necessário apenas arrependimento, mas voltar as obras que praticava no princípio, ou seja, fazer as obras por amor, o apóstolo Paulo nos diz em 1 Coríntios 13:2 que sem amor não somos nada, e dessa forma, não há como viver uma vida que agrada a Deus se não tivermos amor.

Quando não há arrependimento, o candelabro é removido. Candelabro aqui simboliza a própria vida da igreja, se você se lembra, no tabernáculo o candelabro deveria ficar acesso 24 horas por dia. Foi exatamente o que ocorreu com a igreja e a cidade de Éfeso, eles não se arrependeram e hoje a antiga cidade é somente um deserto cheio de ruínas antigas.

A promessa ao vencedor

“Aquele que tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei o direito de comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.”
Apocalipse 2:7

A expressão “vencer” nesse contexto significa os cristãos que permanecerem fiéis ao Senhor apesar das muitas provações e tentações. Eles terão direito de comer da árvore da vida, aquela mesmo que fala em Gênesis, que Deus guardou no jardim para ninguém comer do seu fruto. Um dia iremos poder ter acesso a essa árvore e alimentar do seu fruto, mas esse privilégio é somente para os vencedores, para aqueles que irão permanecer fiel ao nome de Deus, para aqueles que o amam e permanecem em seus caminhos, mesmo diante de um cenário caótico de uma sociedade.

Conclusão

Uma sociedade e geração pode se corromper e sair dos caminhos de Deus muito rápido. A cidade de Éfeso era um exemplo. Na carta que o apóstolo Paulo escreve para a igreja de Éfeso no ano 60 d.C., nela não tinha exortações, não tinha nada que o apóstolo condenava na igreja, já quando ele escreve para a mesma igreja e para o seu líder Timóteo por volta do ano 64 d.C., vemos que Paulo exorta a Timóteo a tomar cuidado com os falsos profetas que estavam surgindo na igreja. Agora, por volta do ano 100 d.C., Jesus já afirma, através da carta do apóstolo João, que a igreja tinha abandonado o primeiro amor. Em poucos anos a igreja deixou de ser uma igreja irrepressível para uma igreja que estava abandonando o amor genuíno. Essa é uma amostra para nós como devemos tomar cuidado, e a cada dia uma frase que devemos ter temor é a: “aquele que está de pé, cuide-se para que não caia.

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Sérgio Luiz

Apaixonado por teologia e pela bíblia. Pós-graduado em Estudos Bíblicos do Novo Testamento pela universidade Unicesumar. Coordenador e professor da rede de ensino de sua igreja local.

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